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Japonês que testemunhou ataque a bomba atômica vive em Cuiabá e expõe obras em museu
14/07/2017

ão sabia que era uma bomba atômica. Estava brincando e achei bonita a nuvem em forma de cogumelo que crescia no azul do céu", lembrou o artista plástico japonês Masanobu Kazurayama, de 78 anos. A nuvem em questão era oriunda da explosão de uma bomba atômica lançada pelos Estados Unidos na cidade de Nagasaki, no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial.

Mesmo tendo seis anos à época, o dia 9 de agosto de 1945 ficou gravado na memória do imigrante que mora em Mato Grosso há 53 anos. "Minha mãe me puxou pelo braço e me levou para o esconderijo no quintal, onde precisamos nos esconder durante os bombardeios", contou o sobrevivente.

Kazurayama testemunhou tanto a guerra quanto a fome e a destruição do país. "Durante a guerra não tinha comida, passamos fome. A minha sorte foi meu pai ser agricultor, por isso nós tinhamos o básico. Com o fim da guerra, pessoas iam na minha casa para trocar jóias e kimonos por comida", recorda. "Eu me lembro de olhar para o céu e ver os aviões passando muito perto do chão e dos telhados das casas".

O imigrante decidiu vir para o Brasil em 1961, após ouvir notícias sobre oportunidades de trabalho por meio da agricultura, além da possibilidade de viver em um país que os japoneses consideravam como pacífico e acolhedor.

Casado há 55 anos, o artista plástico tem cinco filhos e atualmente mora em Cuiabá, onde dá aulas de pintura na Associação Cultural Nipo Brasileira de Cuiabá e Várzea Grande e na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Segunda Guerra Mundial

No dia 6 de agosto de 1945, uma bomba atômica de urânio foi lançada sobre a cidade de Hiroshima. Três dias depois, uma bomba nuclear de plutônio foi lançada sobre a cidade de Nagasaki. Cerca de 80 mil pessoas morreram nesse ataque, sendo metade no primeiro dia. O envenenamento radiativo fez com que os outros 40 mil morressem com o passar dos dias.

O alerta das sirenes era a única maneira de os moradores ficarem sabendo sobre novos ataques, conta Kazurayama. Naquela época, o rádio era a principal fonte de informação, mas muitas vezes a população não tinha acesso. "Todas as casas eram construídas sobre valas de até dez metros de profundidade. Sempre que a sirene tocava, nós precisavamos correr para dentro delas", diz.

O artista plástico conta ao G1 que, na época, morava na província de Kumamoto com sua família. Apesar da proximidade com o local atingido pela bomba atômica, a cidade ficou fora do raio de destruição e radiação da explosão. "A provincía fica a 30 km de Nagasaki, é como se fosse a distância daqui [Cuiabá] a Santo Antônio do Leverger", explica.

No dia 15 de agosto de 1945 o Japão anunciou sua rendição. Um acordo, assinado no dia 2 de setembro, colocou fim ao conflito mundial. Cinco anos depois, quando estudava em uma escola japonesa, o artista plástico foi a Nagasaki em uma excursão. "Era tudo cinza, tudo destruído. Visitamos um museu onde vi fotos daquele dia. Foi muito triste, havia corpos de crianças, homens, mulheres e animais boiando no rio", conta.

Kazurayama (centro) em exposição em Cuiabá em comemoração aos 80 anos da imigração japonesa. O registro é de 1988. (Foto: Reprodução)Kazurayama (centro) em exposição em Cuiabá em comemoração aos 80 anos da imigração japonesa. O registro é de 1988. (Foto: Reprodução)

Kazurayama (centro) em exposição em Cuiabá em comemoração aos 80 anos da imigração japonesa. O registro é de 1988. (Foto: Reprodução)

Mudança para o Brasil

Kazurayama contou que ouvia muito sobre o Brasil durante a adolescência. Japoneses se referiam ao país como acolhedor, pacífico e com terras para plantação a perder de vista. "Em 1959 vi um anúncio sobre uma cooperativa de São Paulo que estava recrutando jovens para trabalhar com agricultura e decidi me candidatar".

A viagem de navio até o Santos (SP) durou 41 dias. De lá, o imigrante seguiu para Castro (PR), onde trabalhou por três anos em uma plantação de batata. Em 1964, Kazurayama decide se mudar para Mato Grosso. "Uma imigrante japonesa contou sobre terras que havia ganhado do presidente Getúlio Vargas na cabeceira do rio Xingu. Não tinha nada lá, nem estrada", lembra o artista plástico.

Segundo ele, as terram haviam sido doadas para estimular a formação de uma colônia japonesa. Kazurayama morou por 18 anos na gleba Rio Ferro, onde trabalhou na plantação de seringueira e pimenta do reino, além de trabalhar como serralheiro. Lá, ele a mulher foram infectados por 3 tipos diferentes de malária.

"Muitos camaradas trabalhavam nas plantações de seringueira e quase todos já tinham o vírus da malária no corpo. Como lá tinha muito mosquito, logo eu e minha esposa pegamos a doença também", lembrou Kazurayama. O japonês ainda se recorda dos 30 dias que precisaram ficar internados na Santa Casa de Cuiabá.

Mas mesmo após receberem alta, o mal estar persistiu e ele já não conseguia mais fazer atividades rotineiras. "Minha cabeça doía muito e eu não tinha coordenação motora para andar", contou. Então, o casal precisou se mudar para São Paulo para tratar a doença.

Assim que recebeu alta, Kazurayama voltou para a plantação de seringueira. "A gente trabalhou igual 'louco' para sobreviver", diz. Em 1982, ele decidiu vender tudo e se mudar para Cuiabá para descansar. As "férias" do trabalho foram breves, já que em 1988, Kazurayama decidiu voltar para o Japão para trabalhar em uma montadora de carros, e só retornou ao Brasil em 2015.

Obra de artista japonês em exposição em museu de Cuiabá (Foto: Bruna Barbosa/G1)Obra de artista japonês em exposição em museu de Cuiabá (Foto: Bruna Barbosa/G1)

Obra de artista japonês em exposição em museu de Cuiabá (Foto: Bruna Barbosa/G1)

Arte como refúgio

Até o ano de 1960, Kazurayama estudava pintura em Kyoto, no Japão. Mas no período que veio trabalhar com plantações no Brasil, o artista plástico precisou deixar a arte de lado. Desde pequeno sempre gostou de tudo que fosse relacionado a arte, mas conta que como não tinha condições financeiras de comprar tintas e pincéis, se inscrevia em competições para ganhar o material.

"Eu nunca comprei nada, sempre ganhava o primeiro lugar nas competições, todos os meus materiais, na época, eram prêmios desses concursos".

Durante a carreira como artista plástico, Kazurayama participou de exposições na UFMT, em Cuiabá e no Japão, onde teve uma de suas obras selecionadas pela organização. "Foram mais de 300 telas de pintores de todo o Japão e a minha foi uma das 20 escolhidas para o prêmio", conta.

Quinze telas de autoria dele ficarão expostas até dia 31 de agosto no Museu do Morro da Caixa D'Água Velha. As obras reproduzem paisagens do Japão e de Mato Grosso. A entrada é gratuita.

G1.com.br/tvca



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